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Não tire conclusões precipitadas sobre o assassino

 Você já teve alguns dias para refletir sobre o terrível massacre num cinema do Colorado. Você foi bombardeado com 'fatos' e opiniões sobre os motivos de James Holmes. Você provavelmente já expressou sua opinião sobre por que ele fez aquilo. E você provavelmente está errado.

Descobri isso do jeito difícil. Em 1999 eu morava em Denver, e estava na primeira onda de repórteres que chegou à Columbine High School, na tarde em que a escola foi atacada. Eu andei com a turma jornalística que criou os mitos com os quais ainda convivemos. Nós criamos aqueles mitos por um motivo: estávamos tentando responder a perturbadora pergunta do por que, e ainda era cedo demais. Passei 10 anos estudando Columbine, e todos sabemos o que aconteceu lá, certo? Dois rapazes solitários aplicaram sua vingança contra os adolescentes populares, por serem vítimas de um bullying implacável.

Nada disso acabou se mostrando verdadeiro.

Mas a imprensa tirou todas essas conclusões nas primeiras 24 horas, e hoje elas são aceitas por muita gente como fatos. A história real é muito mais perturbadora. E instrutiva.

Em toda conferência de segurança para estudantes de ensino médio, universitários e educadores em que sou palestrante, levo os diários deixados pelos assassinos, Eric Harris e Dylan Klebold. As pessoas ficam chocadas com o que descobrem. Perpetradores de chacinas quase nunca são como esperamos que sejam. Eles não são nada como uma visão da pura maldade. Eles são complicados.

Harris manteve um tipo de diário por um ano, focado principalmente em seus planos de explodir a escola e matar os sobreviventes com rifles de alta potência. Klebold manteve um diário mais tradicional por dois anos, expelindo uma selvagem mistura de angústia adolescente e profunda depressão, lutando seriamente com o suicídio desde a primeira página.

O público nunca fica surpreso com o diário de Harris. É apenas ódio e ódio, do começo ao fim. Ele era um psicopata de sangue frio, no uso clínico dessa expressão. Não tinha nenhuma empatia, nenhum respeito pelo sofrimento humano – ou mesmo pela vida humana.

O diário de Klebold é a revelação. Dez páginas são forradas por desenhos de grandes corações macios. Alguns preenchem páginas inteiras, outros aparecem em grupos felizes, junto ao texto 'Eu te amo' atravessado. Ele possuía uma raiva feroz. E tinha um alvo principal para sua raiva. Não os garotos populares, mas ele mesmo. Ele se considerava uma criatura repulsiva. Sem amigos, sem amor, sem uma alma que se preocupasse com ele ou com o que acontecesse em sua vida miserável. Nada disso era objetivamente verdade. Mas era o que ele enxergava.

Trata-se de um mal do colegial, levado ao extremo. Os psicólogos possuem um termo simples para esse estado: depressão. Isso surpreende muita gente. Os depressivos parecem tristes, mas essa é a visão de fora. Claro que estão tristes; eles provavelmente passaram o dia inteiro sendo incansavelmente repreendidos, pela única pessoa no mundo cuja opinião lhes importa – eles mesmos.

Os psicólogos descrevem a depressão como uma raiva voltada para dentro. Quando essa raiva é de alguma forma invertida, e projetada para fora, cuidado.

Dylan Klebold era um caso extremo e raro. A grande maioria dos depressivos só representa perigo a si mesma. Mas também é verdade que, da minúscula fração de pessoas que cometem assassinatos em massa, a maioria não é formada por psicopatas, como Eric Harris, ou mentalmente perturbados, como Seung-Hui Cho da Virginia Tech. Com muito mais frequência, eles são suicidas e profundamente depressivos. O histórico estudo de massacres em escolas conduzido pelo Serviço Secreto americano, em 2002, determinou que 78 por cento dos atiradores teriam experimentado pensamentos suicidas ou tentativas de suicídio antes dos assassinatos.

Neste exato momento, a polícia provavelmente já reuniu inúmeras evidências sobre James Holmes. Eles podem já ter uma clara ideia de seus motivos. É vital que eles compartilhem essas informações inteiramente com o público, mas também precisam ocultar tudo enquanto conduzem as investigações. Testemunhos de amigos, familiares e sobreviventes do massacre também são cruciais, e as testemunhas são altamente sugestionáveis. As informações devem ser retidas em curto prazo, para que suas histórias não se corrompam. Não por sete anos, como no caso dos diários de Columbine, mas talvez por algumas semanas.

Nos próximos dias, você será atingido por todo tipo de evidências sugerindo um motivo ou outro. Não acredite em nada. Holmes já foi descrito como um solitário. Tenha cuidado quanto a isso. Quase todo atirador é marcado com esse rótulo, pois o público está convencido de que esse é o perfil, e pessoas que mal conhecem o assassino repetem isso a qualquer jornalista. O relatório do Serviço Secreto determinou que isso geralmente não é verdade.

Resista à tentação de extrapolar detalhes prematuramente para entender o todo. Sempre que começar a achar que estamos prontos para responder o perturbador por que, foque na imagem dos corações de Dylan. O assassino raramente é quem parece ser.

The New York Times News Service/Syndicate

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